Bixa Bixo estreiou no Festival DDD nos dias 17 e 18.04, na Central Elétrica, no Porto.
O espetáculo é uma imersão artística que articula queerness, ecologia e género por meio de uma abordagem performativa interseccional. A obra investiga alianças dissidentes entre corpo, mato e noite, propondo uma expressão fluida e híbrida das identidades e das relações entre humano e não-humano. A dramaturgia dissolve categorias binárias, construindo uma sintaxe performática que evidencia a interdependência dos ecossistemas e a multiplicidade dos modos de existir. Entre o bixo, a bixa e o mato, pelo encantamento da noite, emergem corporalidades transumanas, nas quais o corpo queer se reconhece como ecologia viva e indomada. Bixa Bixo mostra-se como prática estética e política, reposicionando a natureza como agente ativo de resistência.
https://www.festivalddd.com/current-event/bixa-bixo
Crítica de Rita Xavier – Jornal O Público, 21 de Abril de 2026
https://www.publico.pt/2026/04/21/culturaipsilon/critica/alice-ripoll-cia-afrontosas-ancestars-metamorfose-falta-2172018
Alice Ripoll e Cia. Afrontosas: “ancestars” da metamorfose que nos falta fazer
Há corpos rentes ao chão, bichos que rastejam até se levantarem mais fortes, parindo a sua própria metamorfose. Em duas das 13 estreias absolutas da décima edição do DDD — Festival Dias da Dança, que terminou no domingo, e nos corpos de Alan Ferreira, Hiltinho Fantástico, Katiany Correa, Romulo Galvão, Tamires Costa e Tuany Nascimento, dirigidos por Alice Ripoll em Adorno, e de DIDI, tony omolu, ROD, da companhia Afrontosas, em Bixa Bixo, a dança não se interpreta. Ela acontece. Decoremos estes nomes, que chegam para causar.
Alice Ripoll e Cia. Afrontosas: “ancestars” da metamorfose que nos falta fazer
Rastejam e rastreiam as ruínas das nossas torres eurocêntricas — altas, brancas, humanas —, um colapso que insistimos em desver. Organizam alianças selvagens e mais-do-que-humanas, farejam o entorno enquanto ganham fôlego, e entre gemidos e grunhidos comunicam sem palavras, antecipando o que está para vir. E o que virá no futuro deste mundo que arrasta o culminar de todos os paradigmas? Entretanto, há pessoas que persistem nos seus projectos singulares de criação de mundos, organizando-se e contagiando com suores e indulgência os nossos palcos pasteurizados pela História.
Alice Ripoll e Cia. Afrontosas: “ancestars” da metamorfose que nos falta fazer
Recuemos um pouco no tempo: DDD, 2019. Sob a direcção de Tiago Guedes, a programação focava um Brasil de corpos em te(n)são, esperando atrair espectadores que de outro modo não iriam ao festival. A coreógrafa Alice Ripoll estreava-se em Portugal com Cria, em que trazia a energia das danças urbanas do funk, do passinho à dancinha, e aCORdo, que confrontava cada espectador com o seu próprio racismo. E Linn da Quebrada estourava com Bixa Travesty e o álbum Pajubá essa nova linguagem de euforia e resistência inventada pelas comunidades LGBTQIA+ entre a ancestralidade africana e novas formas de intervenção.
Alice Ripoll e Cia. Afrontosas: “ancestars” da metamorfose que nos falta fazer
Sete anos depois, neste décimo DDD dirigido por Drew Klein (e nas duas edições anteriores com Cristina Planas Leitão), o movimento sintoniza-se com o olho do vulcão do mundo, cada vez mais despedaçado e desesperançado, evidenciando-se campos de tensões, mas também efectivas potências artivistas. Se Alice Ripoll, agora bem conhecida, regressa decorando as marchas fúnebres ocidentais com enfeites carnavalescos e o movimento pélvico do twerk, quando estala o verniz do humor reparamos que entre as sílabas de “adorno” também há “dor”. E se a Cia. Afrontosas soltou a sua fera na festa-performance do ano passado, agora monta o seu ritual afrofuturista feito de cedro, sálvia, alecrim e festa, cuidando-se e protegendo-se. Acende-se a urgência das transformações pela festa da dança que culminou, neste DDD com um memorável Tarab.
Alice Ripoll e Cia. Afrontosas: “ancestars” da metamorfose que nos falta fazer
Há risco de estas manifestações serem lidas como imagem: pessoas negras e trans cooptadas pelo mercado da arte, um signo de diversidade reduzido ao “tokenismo”. A sua criação é exibida, mas não há mudança real e o poder permanece no mesmo lugar dos homens cisgéneros brancos, como vem apontando em diversos contextos ROD [Rodrigo Ribeiro Saturnino], das Afrontosas, e aqui na Contemporânea, em entrevista a Gisela Casimiro: “Enquanto não ocuparmos os lugares de gestão da arte e da cultura, repete-se o uso barato e precário da nossa criatividade como matéria-prima para o entretenimento. Ela ainda é apenas um símbolo de falsas práticas de inclusão. Em Portugal não há reparação histórica. Dar oportunidades não é igual a dar lugar.”
Alice Ripoll e Cia. Afrontosas: “ancestars” da metamorfose que nos falta fazer
Assistimos, nesta nova peça de Alice Ripoll, a um ensaio contínuo de metamorfoses. A trompete da música de Mahler irrompe em compasso de marcha fúnebre, num contraste com aquela comunidade. Como esquecer quando Hiltinho Fantástico se singulariza num solo, exibindo os balões vermelhos inchados feitos testículos dentro da meia apertada? A sua dança é magnética, como a de um cisne que, nas pontas dos pés, encontra o chão, e o percorre com brilho e sombra.
Ficha técnica
Criação, direção artística, interpretação e cenografia
DIDI, tony omolu, ROD
Criação sonora
Xu Lopes
Iluminação
Lui L’Abbate
Figurino
Neusa Trovoada
Produção
Lysandra Domingues, Amina Bawa
Apoio à dramaturgia
Gisela Casimiro
Supervisão artística
Melissa Rodrigues
Assistente de encenação
Isabel Zuaa
Apoios à Criação/Agradecimentos
Polo Cultural Gaivotas | Boavista, Casa da Dança – Almada, EVC (residências artísticas), Associação Parasita (residência), CEA – Moita (residências técnicas), Espaço Alkantara, O Espaço do Tempo, CAMPUS Paulo Cunha e Silva

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