O projeto “Cadê Elas? Pessoas Negras Queer durante a Ditadura Portuguesa” pretende criar um mapeamento sobre o lugar das pessoas negras lgbtqia nos processos revolucionários portugueses, considerando a luta política das identidades um campo fertil para o desencadeamento de mudanças sociais. 

A primeira fase do projeto é realizar um levantamento de dados sobre a relação entre o período da ditadura portuguesa e a presença de comunidades de pessoas negras em Portugal. Para isso vamos fazer buscas em arquivos, bibliotecas e museus. Por exemplo, vamos utilizar o acervo da Torre do Tombo e do Museu do Aljube para verificar se há registros deste grupo no país durante o Estado Novo.

Iremos entrevistar pessoas da comunidade lgbt portuguesa que participaram dos movimentos revolucionários a fim de perceber se estas pessoas notavam a comunidade negra e lgbt em Portugal. Da mesma forma, iremos buscar referências na oralidade das pessoas negras que presenciaram os anos de ditadura a fim de saber delas se há algum registro de pessoas negras queer durante estes anos

Relevância social
Um projeto como o que estamos a propor tem efeitos diretos na produção de novas histórias e revelação de novos fatos frente àqueles que oficialmente existem, nomeadamente em relação ao tema da representatividade. Como imaginar um mundo de revoluções contra ditaduras sem ver a presença negra nestes períodos? A ideologia colonial foi exímia em manter o apagamento destas pessoas em todos os setores da sociedade. Quando referimos pessoas negras e queer esse apagamento é ainda superior. Assim, a criação de um arquivo beneficia a sociedade portuguesa como um todo, proporcionando uma oportunidade de preencher uma lacuna criada de modo premeditado pelo sistema colonial.

O projeto “Cadê elas?” tem como propósito lançar luz à presença e à atuação das pessoas queer negras neste período, servindo assim como uma espécie de prova de vida que atesta o quanto esta comunidade exerceu influências e teve protagonismo, servindo também de base para a transformação social deste país como também dos países libertos.

E quando falamos de representatividade, relembramos por exemplo, casos que se conectam à causa racial, como o apagamento das mulheres que ainda hoje continuam a lutar por condições igualitárias de acesso. É nesse sentido que a comunidade negra portuguesa (principalmente a juventude) também irá se beneficiar no sentido de produção de consciência crítica, percepção de que o mundo não se transforma apenas pelas mãos e mentes de pessoas brancas e cis normativas, e que o povo negro (neste grupo as pessoas negras e LGBT) exerceram protagonismo inequívoco nos processos de conquistas sociais e de direitos civis. O material produzido por este projeto poderá ser válido para leitores, grupos e associações de luta por direitos, acessos e visibilidades; universidades e quiçá poderá compor partes de livros didáticos das escolas secundárias.

O Projeto “Cadê Elas” é financiado pela ENAR – European Network Against Racism através do programa EMPOWERMENT & RESILIENCE (ER) FUND 2024.