Foto: Mário Pires
FFM: Finalmente eu fui
ROD*
Foi minha primeira vez. Levei o livro de bell hooks1 que encontrei abandonado na rua aqui de casa na esperança de começar a lê-lo. Li a primeira página onde havia uma citação de Paulo Freire: “ (…) radicalmente, a existência humana implica assombro, pergunta e risco. E, por tudo isso, implica ação, transformação”. Depois disso, assumo, não peguei mais no livro. A vibração do Festival Músicas do Mundo acabou por sucumbir à minha ingênua vontade de ler um livro no meio daquilo tudo. Entre os sonos perdidos, as ressacas, a vida em conjunto e os concertos, fui experimentando, do jeito que meu corpo conseguia, esse festival que já existe há mais de 20 anos.
Cheguei bem no início de tudo. Porto Corvo. Fui embora bem no final de tudo, num domingo de moleza e praia vazia em Sines. Estava assombrado, Paulo Freire. No primeiro contato conheci o palestiniano Bashar Murada e a cantora Pamela Badjogo, do Gabão. Poder e Glória. Destes dois primeiros concertos comecei a perceber o que havia perdido neste tempo todo sem frequentar o FMM. Durante muitos anos eu alimentei um preconceito mesquinho sobre o festival, imaginando aquele lugar como um espaço onde a presença de “jovens bem-comportados, geralmente poucos presumidos” fosse majoritária. Nada contra, eu até já fui. Talvez isso até fosse verdade há 15 anos atrás. Não sei. Não interessa.
Da riquíssima programação do FMM, rapidamente eu aprendi a lidar com aquela ansiedade de não saber o que ver ou querer ver tudo. Eu no meu lento tempo, aceitei seguir o que o festival fosse me oferecendo e o que o meu corpo fosse querendo. Passei por Susobrino, UmAfricana, Sara Curruchich, Queraltz Lahoz, Eda Diaz, Julieta Venegas, Youssou N´Dour, Bonga, Fábio Ramos, The Bulgarian Voices, Bia Ferreira, Luca Argel, Capicua, Orchestra Baobah, Nação Zumbi, Taiga, Sami Galbi, Warsi Brothers, Rotia Traoré, Kokoroko, Zeltia Irevire, Kiluanji Kia Henda, Gegé M’bakudi, Resem Verkron e por aí fui.
Nesse meio termo, entre a boa música, o calor, os encontros com conhecidos, os beijos, as tendas, o bolo de chocolate, o churrasco, a farofa, a moqueca, os cigarros, o pão de queijo, a caipirinha, o acolhimento, o companheirismo, a irreverência, a curiosidade, o amor, o convívio com aquelas bixas todas e a vista linda da casa onde ficamos foram alimentando meu corpo frágil e ao mesmo tempo ávido por coisas novas. Aos poucos fui erguendo uma vontade de mais até me deparar com o concerto de Bia Ferreira, o mais bonito. Assumo o risco, Paulo Freire, de dizer isso não por falta de mérito e qualidade musical de todos os outros concertos que vi, mas por que o de Bia teve seu lugar na minha existência como pessoa negra, queer e imigrante. Foi também a minha primeira vez naquele culto à luta, à resistência da música negra e ao acolhimento que as suas canções revelam. O trabalho de Bia é, de fato, como está escrito no material de divulgação do FMM, “um lugar de fala”, e a música dela falou comigo. Sharamanayas. Bia trouxe ao palco uma manifestação política, um aconchego quase lancinante com suas letras acuradas e sem curvas. A canção “A conta vai chegar” me fez vislumbrar a potência política da cantora que estava à minha frente. Era uma quinta-feira, dia 24 de julho, 10 da noite. O Castelo estava cheio. Toda gente vibrava com a energia que já tinha chegado ali. Eu, de camiseta, chinelos e bermuda, aproveitava cada segundo daquele show. O espírito lesbiteriano havia me batizado.
Ao mesmo tempo me dei conta da abertura do FMM ao exprimir uma curadoria tão diversa que se tem sustentando a tanto tempo, mesmo no meio de um mundo que, cada vez mais, vem regredindo no seu projeto político de mudança. A curadoria manifesta sempre uma vontade. Ela também é reflexo de um tempo, de um desejo pela variedade, de um sentimento que há mais além daqui e que a arte tem ainda um tipo de poder que pode quebrantar um movimento que tenta aprisionar o diverso, o diferente, o “estranho”. Bia falou alto para um país que se avizinha entrar numa fase sombria para os direitos das pessoas LBTQIAPN+ e imigrantes se não tomarmos uma posição forte e crítica contra as tentativas de nos apagarem.
As insistentes perseguições da polícia a espaços de produção cultural como o Planeta Manas, gerido pela Associação Cultural Mina em Lisboa2, os diversos casos de violência policial contra imigrantes e pessoas negras, os atuais projetos de mudança das políticas de imigração a fim de diminuir a entrada do que denominam de “desqualificados” e as decisões judiciais3 que privilegiam agressores e racistas são exemplos recentes que vão demonstrando os caminhos políticos que Portugal tem escolhido no que diz respeito à diversidade.4 Mas Bia mantém o seu tom profético. A cantora continua a pregar uma verdade que dói. Eu tô ligado. E nessa ferida ela bota o dedo e ainda dá uma rodada, que é pra não se esquecer que a herança portuguesa vem de muitos pretos que não estão no raso e que foram parar no fundo do mar. A dívida é impagável5.
Ano que vem eu espero voltar ao FMM. Espero ler mais que uma página. Espero ver Bia outra vez. Espero muitas outras coisas para esse país. Acima de tudo, espero que o FMM continue a resistir como espaço para a manifestação da diversidade que as músicas do mundo manifestam.
1 bell hooks. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. Editora Elefante, 2020
2 https://acabine.pt/2025/02/novamente-sem-mandado-psp-faz-rusga-ao-planeta-manas/
3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Cl%C3%A1udia_Sim%C3%B5es
4 https://expresso.pt/sociedade/2025-06-20-imigrantes-legais-revistados-ha-seis-meses-pela-psp-na-rusga-do-benformoso-ficaram-sem-o-dinheiro-da-renda-e-das-poupancas-2f9caf51
5 Cf. Denise Ferreira da Silva, A Dívida Impagável: Uma crítica feminista, racial e anticolonial do capitalismo.
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ROD (Rodrigo Ribeiro Saturnino) Artista visual e investigador brasileiro radicado em Lisboa. Jornalista Profissional, Nº 12.095/MG. Possui doutoramento em Sociologia pelo ICS-U (2015). Realizou investigação de pós-doutoramento no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho (2023). A sua prática artística desenvolve-se no campo da crítica decolonial e atravessa a pintura, a escultura, a performance, o desenho, a colagem digital e o design gráfico. Através de projetos autorais e colaborações transdisciplinares, tem contribuído para o debate sobre política da imagem, corpos dissidentes e práticas artísticas comprometidas com a justiça social. Co-fundou o Coletivo Afrontosas e a União Negra das Artes. Mais infos: rodrigoribeirosaturnino.net

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