{"id":2022,"date":"2025-08-25T17:42:16","date_gmt":"2025-08-25T17:42:16","guid":{"rendered":"https:\/\/afrontosas.pt\/?p=2022"},"modified":"2025-08-26T11:02:59","modified_gmt":"2025-08-26T11:02:59","slug":"ffm-finalmente-eu-fui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afrontosas.pt\/en\/2025\/08\/25\/ffm-finalmente-eu-fui\/","title":{"rendered":"FFM: Finalmente eu fui"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-right\">Foto: M\u00e1rio Pires<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading has-text-align-left\"><strong>FFM: Finalmente eu fui<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<p><strong>ROD<\/strong>*<\/p>\n\n\n\n<p>Foi minha primeira vez. Levei o livro de bell hooks<a href=\"#sdfootnote1sym\" id=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a> que encontrei abandonado na rua aqui de casa na esperan\u00e7a de come\u00e7ar a l\u00ea-lo. Li a primeira p\u00e1gina onde havia uma cita\u00e7\u00e3o de Paulo Freire: \u201c (\u2026) radicalmente, a exist\u00eancia humana implica assombro, pergunta e risco. E, por tudo isso, implica a\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o\u201d. Depois disso, assumo, n\u00e3o peguei mais no livro. A vibra\u00e7\u00e3o do Festival M\u00fasicas do Mundo acabou por sucumbir \u00e0 minha ing\u00eanua vontade de ler um livro no meio daquilo tudo. Entre os sonos perdidos, as ressacas, a vida em conjunto e os concertos, fui experimentando, do jeito que meu corpo conseguia, esse festival que j\u00e1 existe h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei bem no in\u00edcio de tudo. Porto Corvo. Fui embora bem no final de tudo, num domingo de moleza e praia vazia em Sines. Estava assombrado, Paulo Freire. No primeiro contato conheci o palestiniano Bashar Murada e a cantora Pamela Badjogo, do Gab\u00e3o. Poder e Gl\u00f3ria. Destes dois primeiros concertos comecei a perceber o que havia perdido neste tempo todo sem frequentar o FMM. Durante muitos anos eu alimentei um preconceito mesquinho sobre o festival, imaginando aquele lugar como um espa\u00e7o onde a presen\u00e7a de \u201cjovens bem-comportados, geralmente poucos presumidos\u201d fosse majorit\u00e1ria. Nada contra, eu at\u00e9 j\u00e1 fui. Talvez isso at\u00e9 fosse verdade h\u00e1 15 anos atr\u00e1s. N\u00e3o sei. N\u00e3o interessa.<\/p>\n\n\n\n<p>Da riqu\u00edssima programa\u00e7\u00e3o do FMM, rapidamente eu aprendi a lidar com aquela ansiedade de n\u00e3o saber o que ver ou querer ver tudo. Eu no meu lento tempo, aceitei seguir o que o festival fosse me oferecendo e o que o meu corpo fosse querendo. Passei por Susobrino, UmAfricana, Sara Curruchich, Queraltz Lahoz, Eda Diaz, Julieta Venegas, Youssou N\u00b4Dour, Bonga, F\u00e1bio Ramos, The Bulgarian Voices, Bia Ferreira, Luca Argel, Capicua, Orchestra Baobah, Na\u00e7\u00e3o Zumbi, Taiga, Sami Galbi, Warsi Brothers, Rotia Traor\u00e9, Kokoroko, Zeltia Irevire, Kiluanji Kia Henda, Geg\u00e9 M&#8217;bakudi, Resem Verkron e por a\u00ed fui.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse meio termo, entre a boa m\u00fasica, o calor, os encontros com conhecidos, os beijos, as tendas, o bolo de chocolate, o churrasco, a farofa, a moqueca, os cigarros, o p\u00e3o de queijo, a caipirinha, o acolhimento, o companheirismo, a irrever\u00eancia, a curiosidade, o amor, o conv\u00edvio com aquelas bixas todas e a vista linda da casa onde ficamos foram alimentando meu corpo fr\u00e1gil e ao mesmo tempo \u00e1vido por coisas novas. Aos poucos fui erguendo uma vontade de mais at\u00e9 me deparar com o concerto de Bia Ferreira, o mais bonito. Assumo o risco, Paulo Freire, de dizer isso n\u00e3o por falta de m\u00e9rito e qualidade musical de todos os outros concertos que vi, mas por que o de Bia teve seu lugar na minha exist\u00eancia como pessoa negra, queer e imigrante. Foi tamb\u00e9m a minha primeira vez naquele culto \u00e0 luta, \u00e0 resist\u00eancia da m\u00fasica negra e ao acolhimento que as suas can\u00e7\u00f5es revelam. O trabalho de Bia \u00e9, de fato, como est\u00e1 escrito no material de divulga\u00e7\u00e3o do FMM, \u201cum lugar de fala\u201d, e a m\u00fasica dela falou comigo. Sharamanayas. Bia trouxe ao palco uma manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, um aconchego quase lancinante com suas letras acuradas e sem curvas. A can\u00e7\u00e3o \u201cA conta vai chegar\u201d me fez vislumbrar a pot\u00eancia pol\u00edtica da cantora que estava \u00e0 minha frente. Era uma quinta-feira, dia 24 de julho, 10 da noite. O Castelo estava cheio. Toda gente vibrava com a energia que j\u00e1 tinha chegado ali. Eu, de camiseta, chinelos e bermuda, aproveitava cada segundo daquele show. O esp\u00edrito lesbiteriano havia me batizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo me dei conta da abertura do FMM ao exprimir uma curadoria t\u00e3o diversa que se tem sustentando a tanto tempo, mesmo no meio de um mundo que, cada vez mais, vem regredindo no seu projeto pol\u00edtico de mudan\u00e7a. A curadoria manifesta sempre uma vontade. Ela tamb\u00e9m \u00e9 reflexo de um tempo, de um desejo pela variedade, de um sentimento que h\u00e1 mais al\u00e9m daqui e que a arte tem ainda um tipo de poder que pode quebrantar um movimento que tenta aprisionar o diverso, o diferente, o \u201cestranho\u201d. Bia falou alto para um pa\u00eds que se avizinha entrar numa fase sombria para os direitos das pessoas LBTQIAPN+ e imigrantes se n\u00e3o tomarmos uma posi\u00e7\u00e3o forte e cr\u00edtica contra as tentativas de nos apagarem.<\/p>\n\n\n\n<p>As insistentes persegui\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia a espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o cultural como o Planeta Manas, gerido pela Associa\u00e7\u00e3o Cultural Mina em Lisboa<a href=\"#sdfootnote2sym\" id=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a>, os diversos casos de viol\u00eancia policial contra imigrantes e pessoas negras, os atuais projetos de mudan\u00e7a das pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o a fim de diminuir a entrada do que denominam de \u201cdesqualificados\u201d e as decis\u00f5es judiciais<a href=\"#sdfootnote3sym\" id=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a> que privilegiam agressores e racistas s\u00e3o exemplos recentes que v\u00e3o demonstrando os caminhos pol\u00edticos que Portugal tem escolhido no que diz respeito \u00e0 diversidade.<a href=\"#sdfootnote4sym\" id=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a> Mas Bia mant\u00e9m o seu tom prof\u00e9tico. A cantora continua a pregar uma verdade que d\u00f3i. Eu t\u00f4 ligado. E nessa ferida ela bota o dedo e ainda d\u00e1 uma rodada, que \u00e9 pra n\u00e3o se esquecer que a heran\u00e7a portuguesa vem de muitos pretos que n\u00e3o est\u00e3o no raso e que foram parar no fundo do mar. A d\u00edvida \u00e9 impag\u00e1vel<a href=\"#sdfootnote5sym\" id=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ano que vem eu espero voltar ao FMM. Espero ler mais que uma p\u00e1gina. Espero ver Bia outra vez. Espero muitas outras coisas para esse pa\u00eds. Acima de tudo, espero que o FMM continue a resistir como espa\u00e7o para a manifesta\u00e7\u00e3o da diversidade que as m\u00fasicas do mundo manifestam.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\" id=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> bell hooks. Ensinando pensamento cr\u00edtico: sabedoria pr\u00e1tica. Editora Elefante, 2020<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote2anc\" id=\"sdfootnote2sym\">2<\/a><a href=\"https:\/\/acabine.pt\/2025\/02\/novamente-sem-mandado-psp-faz-rusga-ao-planeta-manas\/\"> <\/a><a href=\"https:\/\/acabine.pt\/2025\/02\/novamente-sem-mandado-psp-faz-rusga-ao-planeta-manas\/\">https:\/\/acabine.pt\/2025\/02\/novamente-sem-mandado-psp-faz-rusga-ao-planeta-manas\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote3anc\" id=\"sdfootnote3sym\">3<\/a><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caso_Cl\u00e1udia_Sim\u00f5es\"> <\/a><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caso_Cl\u00e1udia_Sim\u00f5es\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caso_Cl%C3%A1udia_Sim%C3%B5es<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote4anc\" id=\"sdfootnote4sym\">4<\/a><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2025-06-20-imigrantes-legais-revistados-ha-seis-meses-pela-psp-na-rusga-do-benformoso-ficaram-sem-o-dinheiro-da-renda-e-das-poupancas-2f9caf51\"> <\/a><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2025-06-20-imigrantes-legais-revistados-ha-seis-meses-pela-psp-na-rusga-do-benformoso-ficaram-sem-o-dinheiro-da-renda-e-das-poupancas-2f9caf51\">https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2025-06-20-imigrantes-legais-revistados-ha-seis-meses-pela-psp-na-rusga-do-benformoso-ficaram-sem-o-dinheiro-da-renda-e-das-poupancas-2f9caf51<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#sdfootnote5anc\" id=\"sdfootnote5sym\">5<\/a> Cf. Denise Ferreira da Silva, A D\u00edvida Impag\u00e1vel: Uma cr\u00edtica feminista, racial e anticolonial do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>_________________________________<br>ROD (Rodrigo Ribeiro Saturnino)<strong> <\/strong>Artista visual e investigador brasileiro radicado em Lisboa. Jornalista Profissional, N\u00ba 12.095\/MG. Possui doutoramento em Sociologia pelo ICS-U (2015). Realizou investiga\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-doutoramento no Centro de Estudos de Comunica\u00e7\u00e3o e Sociedade da Universidade do Minho (2023). A sua pr\u00e1tica art\u00edstica desenvolve-se no campo da cr\u00edtica decolonial e atravessa a pintura, a escultura, a performance, o desenho, a colagem digital e o design gr\u00e1fico. Atrav\u00e9s de projetos autorais e colabora\u00e7\u00f5es transdisciplinares, tem contribu\u00eddo para o debate sobre pol\u00edtica da imagem, corpos dissidentes e pr\u00e1ticas art\u00edsticas comprometidas com a justi\u00e7a social. Co-fundou o Coletivo Afrontosas e a Uni\u00e3o Negra das Artes. Mais infos: <a href=\"http:\/\/rodrigoribeirosaturnino.net\">rodrigoribeirosaturnino.net<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: M\u00e1rio Pires FFM: Finalmente eu fui ROD* Foi minha primeira vez. 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